Raul de Carli é Vulto Emérito de Francisco Beltrão

Por Jornal de Beltrão

O mais novo Vulto Emérito de Francisco Beltrão Raul de Carli é paranaense de Maringá. Nasceu em 23 de junho de 1952. Filho de Aldo De Carli e Nilse Menegasso, tem dois irmãos: Cláudio Luiz e Maria Teresa, que continuam em Maringá.
No tempo de criança, Raul ajudou o pai a colher café e criar gado, mas não muitos anos porque saiu de casa para estudar. Primeiro num internato de Araucária e depois em Curitiba, onde fez cursinho e Odontologia.

Logo após a formatura (na Federal do Paraná), no fim de 1976, estabeleceu-se em Francisco Beltrão, onde fez sua carreira profissional, que expandiu com a formação dos filhos, pois os três são odontólogos: Helton, Aldo Luís e Abigail.

Raul também muito contribuiu para a organização da classe, foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Odontologia (ABO) Seção de Francisco Beltrão.

Nesta entrevista ao Jornal de Beltrão, Raul dá um resumo de sua vida.

JdeB – Hoje, 21 de junho, começa o inverno. Qual a diferença do inverno de Beltrão com o de Maringá?
Raul – Aqui é bem mais frio. Embora morei muito pouco tempo no Norte do Paraná, fui pro internato (de padres), em Araucária, com 10 anos e fiquei sete anos e meio lá.

Quem achou que você levava jeito para ser padre?
Naquele tempo não tinha levar jeito. Saía do mato e ia pro internato. Não tinha onde estudar, então achavam uma maneira. Primeiro foi meu irmão, depois eu.

Gostou?
Foi bom porque naquele tempo estávamos morando no interior de Campo Mourão, 50 quilômetros da cidade, não tinha escola, não tinha nada. Meu pai estava abrindo uma fazenda de gado. A gente tinha um sítio de café e naquele tempo o pai mudou pra lá.

Então não chegou a ajudá-lo?
Nossa! Trabalhei bastante quando era pequeno. As crianças entravam embaixo do pé pra arredar o café que caía, limpar o tronco, como chamava. Depois a gente foi pra escola, meu pai tinha uma visão de que a gente tinha que estudar. Foi bom isso, era um local que a gente podia se desenvolver nos estudos. Aí fiquei em Curitiba, fiz o vestibular pra Odontologia na federal.

De onde a opção por Odontologia?
Do próprio seminário. Tinha um dentista que ia atender as crianças lá e eu fui escalado pra auxiliar o dentista. Fui gostando daquilo que ele fazia e ali que surgiu. Fiz três meses de cursinho no Dom Bosco. Quando saí do seminário, fui estudar no colégio estadual, perto de onde morávamos (CEU – Casa do Estudante Universitário de Curitiba), e fiz o último meio ano ali.

Quando saiu o resultado, ligou para o pai?
Não, meu pai faleceu de leucemia quando eu tinha 15 anos. Ele tinha 40 anos apenas.

E a mãe conseguia te ajudar?
A mãe não tinha condições de ajudar, tive que me virar sozinho. Naquele período que fiz cursinho, tinha recebido da minha mãe uma parte da colheita do café, que era minha parte da herança. Foi com essa parte do café que eu paguei o cursinho e a pensão naquele meio ano. Aí acabou o dinheiro e tive que trabalhar. Trabalhei numa lotérica perfurando aqueles cartões de loteria. Depois fui trabalhar numa gráfica, das seis à meia-noite.

E a CEU te ajudou financeiramente?
Quando entrei na CEU, consegui sobreviver. Na gráfica recebia um salário mínimo e pagava um quarto, o resto era o dinheirinho que sobrava. Assim fui levando até completar o primeiro ano.

Dedicava-se em todas as matérias ou era mais naquelas que lhe interessavam?
Me dediquei em todas, não reprovei em nenhuma matéria. No segundo ano da faculdade, teve um professor que quis dar umas aulas à noite. Falei pra ele que não dava, que eu trabalhava. Ele pediu quanto eu ganhava, falei que era um salário mínimo. Aí ele propôs me pagar um salário também, pra ir trabalhar com ele. Falei que aceitava e fui. Fazia serviço externo, pagava conta, cobrava.

Ele era dentista?
Dentista e professor da faculdade, Orildo Luiz Scheffer. Naquele tempo tinha um rapaz que fazia ortodontia móvel, aparelhos. Comecei a aprender com o rapaz e ele ficou mais um ano, mais ou menos, aí eu assumi. Fiquei o tempo da faculdade trabalhando com ele, ganhei o dinheirinho necessário. Quando fui pro terceiro ano, surgiu a oportunidade pra trabalhar no departamento de odontologia do Diretório Acadêmico Nilo Cairo (Dnac). Toda noite ia lá atender, atendi muitos que são médicos hoje, colegas de outros cursos, atendi muita gente lá.

Aquela tua necessidade de trabalhar te fez conhecer mais gente também.
Tinha que batalhar e correr atrás. Quando trabalhei com o Orildo, às vezes ia na casa das pessoas no domingo, pra cobrar. Ia a pé e de ônibus. Curitiba é muito grande.

E a vinda para Beltrão, como foi?
Beltrão foi uma oportunidade que surgiu com nossos colegas moradores. O Granzotto era meu vizinho de quarto e um dia me falou que precisava ver o avô dele. Eu já estava no final do quarto ano e, como trabalhava no Danc, tinha comprado um carro. Falei que, se ele ajudasse com a gasolina, a gente ia junto. Ele ajudou e viemos pra cá, aí conheci os Granzottos, o Norton, o Nereu, esse pessoal todo que estava aqui. Me falaram que estavam vendendo uma clínica aqui em Beltrão, que era dirigida pelo Romeu e Reni Munaretto, só que eles já tinham ido embora. A clínica estava com o Gastão, que foi quem vendeu pra mim. Era em cima da Tic-Tac. Paguei aluguel muitos anos pro Munaretto. Comprei os equipamentos e aluguei a sala. Vendi o carro pra comprar.
Como foi o começo em Beltrão?
Era acostumado de uma maneira muito diferente da que eu tive que trabalhar aqui. Primeiro porque não tinha hora marcada, formavam filas no início da manhã e quando era 10, 11 horas não tinha mais ninguém. De tarde, às vezes tinha alguns pacientes. De noite também tinha fila. Comecei a atender à noite porque muita gente preferia, pois era depois do serviço. Ia até 11 horas, meia-noite. Daí comecei a organizar hora marcada, só que perdi uma parte da clientela do interior.

Não tinha comunicação?
Naquele tempo, quem tinha telefone era gente rica. Era difícil trabalhar com hora marcada, eles não vinham, esqueciam. Até que começamos a usar telefone, aí ligava, avisava.

E a primeira secretária, quem foi?
Foi a Odila Gagliotto, era a mesma secretária do Gastão. Ela trabalhou comigo uns quatro anos, daí se mudou pra Marmeleiro.

No primeiro ano, comprou um carro?
No primeiro ano já deu pra comprar um carro. Era um Chevette novo. O Alceu Guerra foi no meu consultório me vender um carro. Falei que não tinha condições de comprar, mas ele financiava. Eu disse que não tinha nem pra dar a entrada, mas ele financiava também. Aí fomos no Banco do Brasil, fizemos o financiamento e ele ficou alienado em 36 meses. Com um mês aqui eu já estava de carro (risos).

Como era a organização da classe aqui? O senhor foi o primeiro presidente da ABO.
Nossa classe nem se conhecia. Tinha o Scalco, o Alcion, o Érico, que trabalhava na Cango, era um paraguaio, e eu. Éramos em poucas pessoas. No segundo ano, não teve muita organização também, começou a ter organização depois que veio o Plínio e uma quantidade maior de dentistas. Uns quatro anos depois. Aí fundamos a associação, começamos a nos conhecer e podemos dizer que fundamos uma classe de dentistas aqui. O Hélio Alves Tives era meu secretário.

Aí a população já estava acostumada com hora marcada?
No começo foi difícil. A gente tinha que lembrar os pacientes, se bem que até hoje a gente faz isso. Mas eu fui o primeiro dentista a colocar hora marcada na cidade. Medicina também nem se falava em hora marcada, demorou muitos anos pra isso acontecer aqui.

Como faz sua reciclagem? É todo ano, de vez em quando?
Minhas primeiras reciclagens foram anuais. Até 83 eu ia fazer congressos, saía pra estudar. Em 83, comecei a entender que precisaria de mais coisas, foi aí que conheci Bauru. Lá tinha cursos de aperfeiçoamento, era um ano, um ano e pouco, e comecei a ir pra lá. Conheci professores bem graduados e conhecidos no Brasil e no mundo. Bauru é um centro especial pra Odontologia. Depois fiz especialização em periodontia lá, dois anos, toda quinta-feira eu saía daqui, depois do almoço, ia de carro até Ponta Grossa, lá tinha um ônibus de dentistas que ia pra Bauru. Saía na quinta à tarde e de noite chegava em Ponta Grossa, pegava o ônibus e de manhã chegava em Bauru. Tinha aula na sexta o dia todo e sábado até o meio-dia. Aí fazia o trajeto de volta, amanhecia em casa no domingo.

Qual a diferença dos procedimentos de quando chegou aqui e de hoje?
Totalmente diferente, evoluímos muito. Eu tinha feito um curso de canal em São Paulo, antes de vir pra cá. Fiquei lá durante três meses fazendo um curso intensivo na USP, com o professor Orildo. Junto com o professor Orildo tinha um dentista que fazia endodontia. Fui me desenvolvendo e no Danc fiz muito canal. Aqui eu não queria extrair dente, eu era contra. Quando não tinha jeito, a gente extraía, mas a maioria que queria tratar, a gente tratava.

Tratamento de canal era demorado e caro.
É, a extração era muito mais simples. Depois do canal, tinha que fazer a coroa do dente, o trabalho todo, às vezes um dente custava o preço da dentadura. As pessoas achavam isso muito caro e na verdade a odontologia não é barata. A parte mais barata da odontologia é a prevenção.

O senhor veio morar num lugar distante, mas dá para ver que se sentiu bem útil aqui.
Me sinto bem aqui, gosto de dizer que essa é a minha cidade. Sou realizado profissionalmente. Foi muito difícil sair pra buscar conhecimento. Quando fiz mestrado, por exemplo, em Campinas (SP), tinha um cara que morava em Manaus e chegava em casa antes que eu. Ele ia de avião e eu de ônibus.

Pelo tempo de serviço, já poderia estar aposentado. Ainda pretende trabalhar quanto tempo?
Ah, não vou parar tão cedo. Tenho outros projetos agora. Está vindo a odontologia digital, é algo que vai revolucionar o trabalho de estética, de ortodontia, são muitas coisas novas. Semana retrasada estive a semana toda em São Paulo vendo isso, minha filha está entrando nesse campo também.

Como é a odontologia digital?
É com mais fotos, com scanner de boca, ao invés de moldes de scanner, com impressora pra imprimir a arcada, ou o dente.

Não faz moldes?
O objetivo é fazer os moldes digitalmente, isso já é uma realidade, e a fresadora faz o dente. Você sabe que tive escola de próteses durante 15 anos aqui. Essa escola era pra formar técnicos e o técnico faz tudo manualmente. Hoje, temos máquinas pra fazer parte daquele trabalho do técnico. Em vez de esculpir em cera, de fundir, é a máquina que faz o desenho e produz a peça em materiais altamente estéticos. Essas porcelanas monolíticas têm uma qualidade bem parecida com a do dente, é bem natural. Acredito que daqui uns cinco anos já estaremos num patamar bem diferente.

Como classifica Beltrão hoje, na parte de odontologia?
Beltrão sempre foi uma cidade de pessoas exigentes. Claro que tem população mais carente que não se importa muito, mas, de modo geral, as pessoas são exigentes. Beltrão quer uma odontologia de alto padrão e aqui encontrei um terreno fértil pra isso. Nunca tivemos poder financeiro igual a cidades maiores, em nossa região temos que trabalhar num patamar de custos menores, mas temos uma clientela boa, nunca paramos de trabalhar e sou muito grato a esse povo que me acolheu. Tenho clientes na região toda. Podemos até dizer que a cidade está um pouco saturada, tem duas faculdades, tem um número elevado de dentistas, não é mais uma cidade fácil pra começar, mas a cidade está bem servida de dentistas.

Como recebeu a notícia da homenagem?
Essa homenagem é um prêmio pra odontologia. Sinto que é uma gratificação pelo que a gente fez até hoje pela odontologia, como dentista ou professor. Fomos em busca de trazer o conhecimento das capitais pra cá. Esse era o objetivo e esse prêmio não é só pra mim, mas pros colegas em geral. Me sinto feliz de receber esse reconhecimento. Sei que na vida tudo é vaidade, mas estou feliz, contente pela cidade ter lembrado de mim.

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